quarta-feira, 10 de novembro de 2010

7ª Maratona do Porto: A teimosia de continuar na história!

Por manifesta falta de tempo e disposição para escrever, tenho andado distante da blogosfera. Assim, não dou notícias desde o verão, não fiz a habitual crónica da Meia-Maratona SporZone e não escrevi qualquer palavra acerca da preparação da maratona.

Estive quase para continuar em silêncio, mas depois de ler alguns posts colocados por companheiros de corrida, senti que deveria dizer alguma coisa.

Faço parte da história (de sucesso) da Maratona do Porto, digo-o com muito orgulho! Estive nas anteriores edições e, claro, queria a todo o custo participar (e concluir) na sétima. E foi o querer continuar totalista que me moveu, porque fosse outra maratona em Portugal, ou mesmo no estrangeiro, teria desistido de participar.

No final do mês de Agosto, num habitual treino, sofri uma lesão muscular na face posterior da coxa direita, ou seja a uma semana de começar o meu habitual plano de 9 semanas de preparação para os 42,195 kms. No meu historial de corrida, as lesões que sofrera até à data não passavam de pequenas mazelas, que eram debeladas em pouco tempo e com relativa facilidade. Pensei que com esta sucederia o mesmo.
Primeiro engano!

Descansei uns dias e comecei os treinos para a maratona com alguma moderação durante as duas primeiras semanas. Na terceira aumentei um bocadinho a intensidade, mas nada de especial, comparado com a preparação das anteriores maratonas e ressenti-me uma vez mais. Uns dias de descanso, fisioterapia, massagens e regresso novamente aos treinos, obviamente com cargas menores e muitas cautelas. Entretanto chegou o dia da Meia-Maratona SportZone e seria o teste ideal para avaliar o estado das minhas pernas, ou no caso concreto, da coxa direita. Fiz um tempo de 1h23m53s, embora tenha sentido ainda um ligeiro desconforto na zona afectada da lesão, parecia-me que estava a ficar recuperado. Na semana seguinte, fiz os treinos dentro dos tempos estipulados, incluindo séries de 800 metros e um longo de 26 kms e, pela primeira vez desde o início da preparação específica para a maratona, treinei sem limitações e com boas sensações.
Segundo engano!

Volvidos dois dias, num treino de baixa intensidade e de recuperação, uma 'pontada' na famigerada coxa direita veio recordar-me que afinal a lesão ainda morava lá. Novamente uns dias de descanso, piscina, fisioterapia e massagens e recomecei a treinar. Estavamos a três semanas da maratona e as dúvidas que tinha em poder ter algum sucesso na prova começavam a passar quase a certezas, mas como sou um tipo teimoso e que gosta de correr riscos, não desisti e estar na linha da partida e claro fazê-la!

A partir deste momento, o desafio, com uma dose de loucura, passou a ser - Será que resisto? Conseguirei concluir a prova?

Assim, quando no passado domingo soou o tiro da partida, larguei consciente que a minha corrida seria uma incógnita e que o risco de ser forçado a abandonar era demasiado grande! Mesmo com estas permissas nada animadoras, o objectivo era fazer um tempo a rondar as 2h55m-2h59m59s, porque além de teimoso, também sou pouco modesto!

Até à passagem da meia-maratona fui confortávelmente a um ritmo +/- 4m10s/km, registando um tempo de 1h26m57s. Aos 24 um ligeiro aviso coxa, deu-me sinal para abrandar e que as dificuldades iriam começar. Atravessei a ponte D. Luís e tentei seguir a um ritmo dentro dos 4m25s-4m30s/km que, a conseguir manter, daria para fechar com um tempo no limiar das 3 horas. Lá fui seguindo, não muito confortável nesta cadência. Fui apanhado pelo Mark Velhote, no entanto ainda consegui colar-me a ele uns kms mais à frente e já na companhia deste aos 33 kms, contabilizando um tempo de 2h17m58s, a minha coxa direita resolveu provar-me que iria ter de abrandar ainda mais para continuar! Fui reduzindo então o ritmo, primeiro para 5m/km, depois para 6m/km, depois para 7m/km, depois para 8 km, e cheguei à meta devagar muito devagarinho, gastando 64 minutos para correr 9 kms, concluindo a minha sétima maratona do Porto em 3h21m44s!

Gostava de referir que, apesar de toda esta epopeia, não cheguei ao fim cansado! Sentia-me como se tivesse feito um treino longo. Apenas sentia um desconforto na coxa direita que me impedia de correr, mas caminhava normalmente e sem qualquer esforço!

Não gosto de desistir, não faz o meu género e queria fazer parte da história da Maratona do Porto, contribuindo para que registasse mais atletas chegados à meta nas maratonas corridas em Portugal. Mais tarde vim a saber que este record foi alcançado - Foi a minha pequena vitória!

Em jeito de balanço, durante as 9 semanas específicas do treino, mesmo tendo sido forçado a vários dias de descanso e a ritmos mais moderados, contabilizei nesse período 800 kms - com este volume de treino a probabilidade de debelar por completo a lesão e obter êxito na maratona era muito reduzida! Não aconselhava ninguém a correr uma maratona nestas condições, no entanto uma coisa é dar conselhos aos outros, outra coisa é quando somos nós!

Desta vez não soltei o queniano que tenho dentro de mim, soltei o soldado Pheidippides, que 2500 anos depois também merece ser recordado!

Agora, só espero que a minha teimosia não tenha agravado o quadro clínico da lesão.

Brevemente saberei, enquanto não souber vou permanecer quietinho!

Abraço, a todos!

12 comentários:

António Almeida disse...

Olá Capela
vi que algo não estava bem contigo das 2 vezes em que te vi passar na Afurada, apesar de tudo terminaste mais uma.
Rápidas melhoras e que possa voltar em breve a libertar o queniano que há em ti e já agora não "abandones" este excelente espaço da blogosfera corredora.
Grande abraço.

Fernando Andrade. disse...

Grande Capela
Apreciei muito o teu espírito de lutador e continuares a fazer parte do grupo de totalistas a que eu, honrosamente, também pertenço.
Estou, no entanto, convicto de uma coisa : se em vez de apontares para as 3h (dada a incerteza do comportamento da coxa) se tivesses apontado para uma marca a rondar as 3,15, tê-lo-ias conseguido. É que, não é novidade nenhuma e tu sabes isso melhor que ninguém, quando se anda próximo do limite, a lesão tem muito mais probabilidade de aparecer. Mesmo assim, 3,25, não é de se deitar fora. O pior foram, de certeza, as dores que passaste para concluir a Prova.
Parabéns pelo relato e por manteres o "estatuto".
Grande abraço.
FA

Vitor Veloso disse...

Olá José,
Foi mesmo falta de sorte, aparecer a lesão num momento de preparação.
Não fez o pretendido mas também não abandonou, esta de parabéns.
Ainda não foi desta que nos cumprimentamos, devo ter passado por ti mas no meio de tantos atletas e difícil reconhecer.
Boa recuperação, espero que ultrapasse rapidamente o momento menos bom
Abraço
Vítor Veloso

MPaiva disse...

Amigo Capela,

Quando vi a classificação da prova e dei conta do tempo que tinhas realizado, percebi logo que algo de anormal se tinha passado. Aliás, já desconfiava de alguma coisa depois da performance abaixo do normal na Sport Zone, mas como não falamos, não sabia dos problemas que tens passado.
Gostava de te dar um abraço pela coragem de correr e por teres conseguido lutar para não desistir.
Espero que o problema se resolva bem e, estando a Maratona do Porto passada, não tenhas pressa, pois o importante é que não fiquem mazelas.

abraço
MPaiva

joaquim adelino disse...

Parabéns pelo esforço e pela conclusão da prova, se aqueles 5 kms finais falassem teria muitas histórias de heroísmo para contar.
Espero também que as melhoras apareçam depressa.
Abraço

Carlos Castro disse...

Olá Capela!
Ao ler a tua crónica revivi aquilo que... estou a viver! Lembras-te da Corrida da Cidade de Braga? Foi (e talvez será!...) a minha última!
Já em Viana sentia o mal, apesar da 01h19, mas persisti...
Mas dou-te os parabéns por seres um guerreiro!
Conselho aos outros é fácil; aqui vai: vai com calma! Não agraves o mal! Não faças o que eu fiz! Agora o médico diz-me: "Acabou!"
Força!
Abraço!

Anónimo disse...

olá Capela,
espero que essa coxa esteja mais "formosa". Parabéns pelo esforço e pelo registo e contributo para o número de ltetas chegados.
Curiosamente, em 2007 fiz a minha 2 maratona tb aí no Porto, e cheio de esperança e de um pacote de 16 semanas de treino, pensava "muito alto". Com a temperatura nesse dia a rondar os 25 graus deixei-me embalar na ilusão e a partir dos 32 as cãimbras deram cabo de mim. Cheguei ao final com 4h46m, também nada cansado e com a certeza de que ser maratonista não tem nada a ver com tempos nem com recordes: tem apenas a ver com não desistir, mesmo quando todo o corpo nos pede para o fazer.
Abraço
Boa recuperação
António Bento - Tartaruga

Rui Pena disse...

Capela,

És daqueles bloggers que comecei a ler quando me interessei pelas corridas... Fazes parte dos que acompanho e nos meus treinos deste ano lembrava-me muito dos que tu partilhaste em 2009... mas de facto não postado muito nos últimos tempos...

Em primeiro lugar, espero que a razão seja só falta de vontade e que a vida te corra bem... mas, se tiveste alguma chatice, força nisso.

Quanto a esta maratona, vi-te atrás do Velhote antes do túnel, o que surpreendeu um bocado... mas aqui se percebe o porque.

Quanto a teres chegado ao fim, acho que te devo dar os parabéns... não desistir é sempre uma qualidade.

Espero que essa lesão se resolva rápido para soltares esse queniano que há em ti nas São Silvestres...

Abraço.

Nadais disse...

antonio isso faz parte de um atleta amador. tens boas marcas que não é pouco comparado com muitos colegas. espero melhoras. valeu! nadais

Anónimo disse...

Viva Zé,

Boa recuperação!

Beijokas,

Manuela

Vitor Dias disse...

Viva Capela

Não desanimes pois quem se mete nelas a elas está sujeito. Uns mais e outros menos, todos já passamos um bocado por estas situações como a tua. Forte como és, não tarda nada e já só te vemos na partida.

1 abraço e votos de rápida recuperação.

Vitor Dias

Flechinhas disse...

Como dizia Napoleão " A vitória é dos perseverantes"
Grande Soldado!

Abraço
Duarte