

Na última semana bateu-se um enorme temporal sobre o norte do país. Chuvas e ventos fortes estavam na ordem do dia, aliás a Protecção Civil, anunciava permanentemente alertas para os distritos de Braga e Viana do Castelo. Mas atleta que se preze e qu
e goste de agitar as endorfinas, dá poucos ouvidos a este tipo de avisos. Assim, os treinos dos últimos dias foram feitos debaixo de chuvas intensas e ventos que até arrancaram árvores! Com este panorama e segundo os meteorologistas para a manhã de domingo não era esperado nenhum dia ameno.
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Cheguei a Viana bastante cedo, até nem foi preciso estacionar o carro no parqu
e pago junto à antiga doca, ficou mesmo em frente ao Navio-Museu Gil Eanes e à borla! Quando saí do carro, não chovia mas já corria um vento bastante desagradável e sobretudo muito frio. Subi a avenida onde é dada a partida e chegada e a azáfama da organização em manter de pé as grades, as bandeiras e as faixas publicitárias ali colocadas era grande, sinais que o tempo continuava a fazer es
tragos. A Manuela Machado andava numa roda-viva. Levantei os dorsais sem qualquer espécie de fila e comecei a duvidar que os 2000 atletas que a organização anunciou fossem atingidos. Obviamente, muitos preferiram ficar, como disse o outro - na caminha - a ir correr com esta invernia.


Como estava frio comecei a fazer o aquecimento com 45 minutos de antecedência da hora da partida. Entretanto os atletas começavam a aparecer de todos os lados e também a fazerem-se notar os inúmeros espanhóis que a organização garantia ter presentes. Nos trotes ligeiros do aquecimento, quando corríamos para Norte o vento travava, para Sul o vento empurrava, outras vezes pura e simplesmente atrapalhava. Nas habituais impressões que se trocam entre os atletas era unânime ouvir-se que ia ser uma corrida difícil e nada propícia a grandes tempos.
Para continuar na senda dos records teria de concluir a prova abaixo de 1h18m47s! Pareceu-me que não era o dia ideal para isso, não pela minha condição física, mas pelas condições climatéricas. Mas como sou teimoso, disse para mim - partes para o tempo que te dê o record, se não for possível, paciência!
Encaminhei-me para a partida, fui furando entre este e aquele e até consegui um bom lugar. Apesar
do tempo adverso e embora longe dos números esperados pela organização do evento, ainda assim estava muita gente. A partida foi dada e tento agrupar-me a atletas que tem ritmos idênticos aos meus, para ver se seguindo em grupo, minorava as dificuldades que se perspectivavam. Dobrei o km 5 em 18m15s, o que era bastante bom! O vento até aqui não atrapalhou, não seguia propriamente em grupo, mas também não ia só, ultrapassava aqui e ali um atleta ou era ultrapassado. Dos 5 aos 1o kms saímos de Viana e rumamos a Cardielos, à freguesia de onde é natural a Manuela Machado, o percurso é feito num sobe e desce, nada de muito difícil, atenuado até pela ajuda do vento. Aqui já seguia praticamente entregue a mim próprio, mantendo um ritmo dentro dos 3m42s/km, que era excelente, mas estava a desconfiar que quando tivesse de correr no sentido inverso, a corrida ia complicar-se. Cheguei aos 10 kms com 36m44s, que dava uma margem positiva de cerca de 30 segundos para a obtenção do record. Estava a fazer um trabalho de formiga, tentando amealhar segundos necessários quando o vento era favorável, para depois poder perdê-los quando este se revelasse desfavorável! Depois do retorno próximo dos 12 kms, o que se suspeitava que ia acontecer, acontecia mesmo. O vento estava mesmo contra, era necessário imprimir mais força nas pernas, tentava-se chegar a um colega e ficar escondido atrás dele, olhava-se em frente e esperava-se que junto aquele muro alto fosse mais abrigado. Puro engano! O meu cronómetro na passagem dos 15 km sentenciava que o que amealhei até aos 10 km estava esbanjando e que até já contabilizava um prejuízo de 10 segundos. Como se seguiam 2 km a descer e o meu optimismo não é fácil de abalar, ainda acreditava que o vento pudesse d
ar uma trégua e o record ser alcançado. Esta ilusão demorou muito pouco, entre o km 17 e 18 o vento era forte demais, por momentos quase me parou e as consequências no cronómetro foram devastadoras - 1 km em 4m18s! Depois fica muito difícil voltar ao ritmo e só dos 19 para os 20 km consegui 3m48s, mas era demasiado tarde e o record já o vento o tinha levado!

Cortei a meta com 1h19m40s, atendendo às circunstâncias até foi um tempo simpático. Fui 79º lugar na classificação geral entre os 999 que terminaram a prova e no escalão veteranos 45-50 anos, 7º em 170.
Não adianta chorar os caprichos da natureza, a leveza das minhas pernas não tiveram argumentos para o vento. O record pode esperar, ainda estamos no início de 2009 e até ao fim não vão faltar oportunidades para o superar!