Como referi no
post anterior, a 'mãe' da Nazaré tinha-me sussurrado ao ouvido que o
record da meia-maratona poderia ser batido em breve! Fiquei com a pulga atrás da orelha e

não descansei enquanto não me inscrevi numa 'meia' para dissipar a questão. Olhei para o calendário de corridas e escolhi a Marinha Grande. Como fica nas proximidades da Nazaré, quem sabe se poderia contar com a graça da mãe! Em 2005 tinha participado nesta prova, que apesar de ser modesta em termos de números de atletas, tem excelente percurso, abastecimentos suficientes e marcação de kms devidamente referenciados, reunindo portanto todas as condições para uma boa corrida.
Depois de ter convencido dois companheiros de equipa a fazer uma viagem de 250 kms debaixo de chuva intensa, para ir correr uma meia-maratona, não podia defraudar as expectativas, o objectivo era apenas um: Correr para o record!
Como estavam apenas cerca de 200 atletas, deu para proceder ao aquecimento com todos os pormenores que uma corrida exige. A chuva, que até então nã

o parava de cair, também deu uma trégua, o céu começou a aliviar e o sol fez, aqui e ali, uma breve aparição. Como não estava muito frio e o vento que havia não era muito forte, até o tempo parecia querer dar uma ajuda à saga que ia travar com o cronómetro.
Em todas as corridas, planeio o ritmo a que devo seguir com vista a alcançar o resultado pretendido. As contas eram simples, para melhorar o meu record que estava em 1h18m56s, teria que correr a uma média dentro dos 3m44s/km, sendo a estratégia de 18m40s por cada 5 kms. Parti com muita determinação, mas isto das corridas nem sempre é como a gente deseja e as contas tantas vezes saem furadas!
Até ao 5º km segui num grupo de meia dúzia de atletas, registando um tempo de 18m27s, nos kms seguintes fiquei apenas com 2 companheiros e mantivemo-nos até aos 10 kms, que foram dobra

dos com o tempo de 37m08s. De acordo com os meus cálculos estava com um intervalo positivo de 12 segundos, mas era uma margem reduzida que não me permitia grandes quebras para a segunda parte da corrida. A partir dos 12 kms os meus companheiros ficaram para trás, no entanto não esmoreci - no momento em que se fica sozinho correndo pela estrada fora, o apelo à capacidade de resistir às adversidades vem ao de cima. Naturalmente, acusei algum desgaste e na passagem dos 15 kms o meu cronómetro assinalou 56m03s, perdendo apenas escassos 3 segundos!
Entrava na fase crucial da corrida, era a hora da superação, como fui ultrapassando alguns atletas que iam em perda fui-me motivando e acreditando que era possível. A partir daqui entrei numa luta contra o cronómetro, cada segundo que corresse mais rápido representava uma grande vitória! Entro no 19º km com 1h07m12s, até ao 20º km sobe ligeiramente, forcei o ritmo para não quebrar, dobrando a placa dos 20 km com 1h14m54s. A guerra contra o tempo

seria ganha ou perdida por uns ínfimos segundos! No último km aproveitando a ligeira descida até à meta e a enorme vontade que tinha de vencer o relógio, cerrei os dentes e com todas as forças que tinha embalei a toda velocidade até à meta! Alguns metros mais à frente, rodei o pulso, olhei para o cronómetro que assinalava 1h18m47s! Fantástico, saí vitorioso e meu anterior
record foi batido por 9 segundos! Na
classificação geral fui 24º e no escalão 45-50 anos o 4º!
Como no dia seguinte a minha equipa ia estar em peso na 51ª. Volta a Paranhos no Porto, voltei a calçar as sapatilhas para fazer esta clássica corrida de 10 kms. Apesar de ter rolado em ritmo de treino fiz o tempo de 38m39s e, mesmo assim fui 158º entre os
1039 atletas que terminaram a prova.
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As pernas não vivem à sombra da fama, tem de estar operacionais para mostrar quanto valem a todo o momento!