quarta-feira, 14 de março de 2007

O elogio à tribo.


Estávamos em Maio. Os dias eram mais longos e a temperatura bastante agradável. Eu descia a avenida, dava duas ou três voltas ao parque e a minha respiração já era ofegante. Os meus passos cada vez mais vagarosos, rapidamente cediam ao cansaço do corpo, que deixava de se movimentar para começar a arrastar-se. Enquanto isso, cruzava-se comigo um grupo de corredores, que deslizava suavemente os pés pelos caminhos de terra batida, numa passada rápida e certa, em amena cavaqueira.

Como sou teimoso e estava determinado em levar por diante este novo desafio, obriguei-me a cumprir essas voltinhas três vezes por semana, mesmo quando os músculos reclamavam dor.

O mês de Setembro chegou e com ele vieram as primeiras chuvas. No princípio ainda hesitei sair para correr, insisti, não desisti, em boa hora o fiz porque correr à chuva revelou-se um desconhecido prazer, recordando os tempos de criança em que à revelia dos pais saltava alegremente de charco em charco de água.

Passados alguns meses, a minha condição física não só melhorara, mas a minha auto-estima também estava mais elevada. Entusiasmado pelo êxito pessoal alcançado, aumentei a frequência dos dias de corrida, que de um momento para o outro passou a ser diária.
É!!!!! "Primeiro estranha-se, depois entranha-se", não foi a respeito da corrida que Fernando Pessoa escreveu isto, mas até parece!

Assim,

...juntei-me ao grupo dos grandes malucos que trocam o aconchego do sofá, saiem à rua para correr e serem fustigados pela chuva, pelo vento e pelo frio, dos rigorosos invernos do norte.
...passei a fazer parte daqueles loucos, que num fim de tarde de verão ao invés de estarem numa esplanada a saborear uma cerveja fresca, correm alienadamente até se esvairem em suor.
...tornei-me um dos muitos doidos, que ao domingo bem cedo, enquanto meio mundo dorme, sai para uma longa corrida de muitos quilómetros no asfalto, chegando a casa com um sorriso nos lábios e a naturalidade de quem foi ao quiosque da esquina comprar um jornal.

Desta forma, entrei no maravilhoso mundo da corrida, sentindo-me um privilegiado por fazer parte desta estranha tribo!





6 comentários:

Anónimo disse...

...e sem loucura que serias tu? É esse teu sorriso de menino traquina enquanto partilha a lembrança desses momentos loucos (ou nem tanto!)que fazem de ti um ser especial... que me faz parar de trabalhar - até porque o trabalho tb está uma chatice!!! - e pensar em ti a milhas de distância... a momentos vividos e partilhados, na mudança, no sucesso, nos vários rostos que a felicidade pode ter... Um beijo grande e até breve
Sílvia, Wuka e Laura - Cabo Verde

Anónimo disse...

Fiquei enternecida ao ver esta foto... Quem diria que essas perninhas iriam correr tantos quilómetros.
A 15 de Abril, em Roterdão, mesmo que não alcances o teu objectivo para mim já és campeão!
Beijoca

Uma irmã babada

André Vila Alves disse...

Também eu fui alienado e encontro-me sem remissão possível incluído no grupo dos malucos que trocam a cervejinha gelada dos fins de tarde de Verão, o aconchego da cama ao Domingo e o confortável convite do sofá, por esse estranho prazer de calcorrear estradas e caminhos num passo ritmado de corrida.
Boas corridas e continue a escrever.

Zen disse...

Capela

Parabéns pelo blog! Vou colocar um link no " Trilhos Míticos".

Felicidades e muitas corridas.

Zen

Zen disse...

Capela

Parabéns pelo blog e bem-vindo à "Tribo" ( das corridas e dos blogs)

Vou "linka-lo" no Trilhos Míticos.

Abraço.

António Bento disse...

Boas José Capela
estou hoje de férias a "ressacar" da maratona do Porto. Obrigado pelo seu blogue. Vim fazer um "zap" por alguns blogues da corrida e deparei-me com esta pérola.
Parabéns pelo brilhante tempo ontem.
Abraço, boas corridas
até breve
AB